Retrato dos invisíveis — parte 1

Retrato dos invisíveis - parte 1

Fotos e texto:

Isabela "Alex" Flores (@isabelaalexflores)

Assistente de fotografia e iluminação:

Bianca Gabriele (@briele_fotografia)


Estudar na Universidade Federal do Ceará para muitos é um sonho, para nós que estamos dentro:

É um inferno.


Por mais que pareça contraditório dizer que estudar na federal é uma desgraça, com o tempo, estudando nesse ambiente hostil e insalubre, você irá perceber o quão mal esse lugar faz para sua saúde — física e mental —, pois quem estuda nessa instituição é tratado apenas como um número, uma mera estatística, uma matrícula no sistema.



A universidade é pensada na desistência estudantil

Com a sistemática exclusão dos mais pobres, a instituição é um local que remete à Grecia antiga — da pior maneira possível — visto que para realizar atividades como filosofia, estudos e afins era necessário o ócio e só quem havia esse tempo livre de sobra eram os mais favorecidos daquela sociedade, tal qual é hoje em dia: o estudante que precisa trabalhar e estudar muitas vezes desiste da faculdade, afinal apresentar bons seminários não coloca comida na mesa, ou se ainda continua no seu curso, tem enormes dificuldades acadêmicas.

O jeito que as grades curriculares são montadas refletem exatamente isso, é praticamente impossível se formar no tempo previsto de cada curso tendo que trabalhar, esse privilégio só é permitido para quem não precisa sustentar uma casa e pode se dar ao luxo de fazer todas as cadeiras no tempo previsto.
 

E com isso (e outros fatores que irão aparecer ainda na publicação) a desumanização é inevitável, as condições insalubres de estudo vão além da falta de estrutura e chegam ao nível psicológico, é só conversar com qualquer estudante que você verá os reflexos da faculdade nele: depravação do sono, ansiedade, depressão, síndrome do impostor, zero perspectiva de futuro, sensação de perca de tempo com as aulas e atividades obrigatórias.

O estudante pode se esforçar ao máximo, mas nunca será reconhecido.


Uma infeliz situação corriqueira é a instituição levar todo o crédito pelo o que o aluno fez, faça esse exercício, toda vez que sai uma notícia sobre a UFC é dito "estudante de tal curso descobre coisa nova", você lembra de algum deles? O nome deles é citado logo no começo da matéria? Ou o nome "Universidade Federal do Ceará" se destaca e ofusca todo o trabalho árduo dos estudantes que desenvolveram tal inovação? Na matéria irá falar sobre as noites de sono perdidas que envolveram a descoberta? Ou sobre a pressão exercida sobre o discente para entregar logo os resultados?

Eu poderia facilmente continuar essa lista de perguntas retóricas, mas creio que a ideia já está clara:

Quando não conseguimos o tal sucesso acadêmico, somos escorraçados para debaixo do tapete e de lá não saímos.

Quando conseguimos uma conquista como uma descoberta, invenção ou coisa do tipo, quem leva os créditos é o curso, a instituição, mas nunca a gente.

Somos invisíveis na universidade, não somos tratados muitas vezes como humanos e sim como máquinas: máquinas de ler, máquinas de apresentar seminários, máquinas de realizar listas de exercícios, máquinas de levantar peso em bolsa voluntária, apenas máquinas que não terão seu trabalho reconhecido.


E para piorar o que já é ruim, não temos o mínimo de condições de estudos, pois ter uma sala com ar condicionado não é o mínimo, o mínimo é ser respeitado, é ter sua voz ouvida e considerada, é ter condições humanas de convivência, e aliado a isso, ai sim entra a estrutura física, que obviamente também não temos.


Falta o básico tanto no respeito quando na estrutura, essa que claramente afeta no desempenho e entrega de resultados das máquinas (nós estudantes), que somos obrigados a nos virar e ir atrás para além da universidade por algo que é obrigação dela nos prover, como água potável de qualidade, computadores para disciplinas de tecnologia, ônibus para aulas de campo, e mesmo sem estrutura a cobrança não para, o seu orientador não se importa se você tá mal da cabeça e que você não tem computador, você tem que dar seu jeito de entregar o artigo até o prazo estabelecido, afinal, se você não entregar, ele apenas te dispensa e escolhe outro orientando, o que importa é o artigo ser publicado, é o ranking da universidade subir, não a sua saúde.


E entrando na pauta, os estudantes estão por si só enquanto os docentes, que ganham salários que nós não conseguimos nem sonhar em ganhar um dia, começam uma greve com os taes que apenas atrapalha os estudantes, porque enquanto eles ganham para não trabalharem, nós estamos tendo nossas bolsas cortadas, calendário de bolsa atrasado, até agora já perdemos um semestre por causa dessa greve e provavelmente perderemos mais um, ou seja, quase um ano todo por uma paralização sem sentido, já que passamos 6 anos durante dois governos que faziam de tudo para destruir a educação pública no país e não houve nenhuma greve, mas só agora temos essa movimentação toda "em prol da universidade pública", mas no fim, sabemos que as melhorias não serão para quem sustenta a universidade — nós estudantes — e sim aumentos de salários e benefícios que já são grandes para a qualidade (no caso, a falta dela) de ensino que nos é ofertado.

Por que não basta termos que fazer tudo, temos ainda que sermos autodidatas porque se dependermos apenas das aulas e do conteúdo que é lecionado não passamos nem nas próprias disciplinas, quem dirá ser um profissional no mínimo decente no mercado de trabalho.


Essa é a realidade da universidade pública, da UFC, a parte mais importante dela, nós estudantes, somos tratados como máquinas à cumprir desejos e ordens, verdadeiros burros de carga, enquanto quem leva o crédito é a instituição que preza pela política de desistência estudantil.


Fotos e texto por: Isabela "Alex" Flores (@isabelaalexflores)
Assistente de fotografia e iluminação: Bianca Gabriele (@briele_fotografia)

Agradecimentos aos alunos que se voluntariaram para as fotos e conversas sobre o tema:

Edgar Melo
Matheus Mesquita
Alice Lima

Sem vocês não seria possível, obrigade.

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